Às vezes apercebo-me de como (erradamente) a técnica me perturba não só o modo como toco, mas o modo como oiço. Não só porque apesar de saber que não posso tocar melhor do que tocava em casa, apesar de saber que as coisas ou estão seguras ou não estão, e que não é mais concentração naquela passagem que me fará tocá-la afinada e no tempo, mas sim mais estudo em casa… Não me consigo entregar totalmente e esquecer isso para me lembrar daquilo que quero fazer com a música.
O mesmo se passa quando oiço alguém a tocar. Talvez não tão drástico, porque fico quase irritado e chateado quando alguém toca o segundo andamento da sonata de Schostakovich como quem toca as três galinhas, mas inconscientemente perturba-me aquela desafinação, aquela mudança de posição, aquela mão desorganizada…
O que se passa é que o violoncelista do quarteto Casals toca com o violoncelo quase no chão, com os dedos colados uns aos outros, mas tira um som inimaginavelmente bonito, e mais impressionante que isso, um som extremamente potente… Porque a técnica não é nada. Ajuda a que não tenhamos limitações, relaxa-nos, organiza-nos, mas não serve para nada… E embora eu pense sempre desta maneira, talvez tenha de ser mais vigoroso: Se for preciso tocar com a mão ao contrário para tirar o som que eu quero, eu faço-o. E embora esteja a tocar o final do trio de chausson a pegar no arco como quem pega num martelo, não o faço sem medo. E não posso, tenho de ser claro…